A morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, durante uma atividade de rope jump na Ponte do Esqueleto, no interior de São Paulo, não pode ser tratada apenas como uma “fatalidade”. Essa palavra, aliás, virou uma espécie de pano molhado jogado sobre tragédias anunciadas. Quando ninguém quer encarar responsabilidade, aparece alguém dizendo que foi uma fatalidade. Fica bonito, parece neutro, parece respeitoso. Mas, em muitos casos, é só uma maneira educada de não dizer o óbvio: houve erro, houve descuido, houve negligência, houve uma cadeia de decisões ruins.
Pelo que foi divulgado até agora, Maria Eduarda foi lançada de uma ponte sem estar presa à corda de segurança. A atividade aconteceu em uma estrutura conhecida como Ponte do Esqueleto, na divisa entre Limeira e Cordeirópolis. Segundo reportagens publicadas nos últimos dias, a jovem deveria estar conectada ao sistema de segurança, mas isso não ocorreu. Três homens foram presos, e o caso passou a ser investigado como homicídio com dolo eventual, quando se assume o risco de produzir o resultado.
Não sou jurista e não estou aqui para substituir investigação, perícia ou julgamento. Mas não preciso ser jurista para dizer uma coisa: no campo da segurança, não existe romantização possível para uma falha desse tamanho. Quem trabalha com atividade de risco não pode depender de memória, confiança verbal, pressa, empolgação ou “vai dar certo”. Atividade de risco exige procedimento. E procedimento existe justamente para impedir que o erro humano vire tragédia.
O problema não é a aventura. O problema é o amadorismo fantasiado de aventura.
A adrenalina não pode substituir o protocolo
Existe uma diferença enorme entre esporte radical e irresponsabilidade radical. O primeiro envolve risco controlado, equipe preparada, autorização, equipamento correto, redundância, checagem, comando claro e cultura de segurança. O segundo envolve improviso, pose, marketing, gritaria, vídeo bonito e aquela fé quase religiosa de que tudo vai funcionar porque funcionou das outras vezes.
E é aí que mora uma das maiores armadilhas. Quando uma atividade perigosa dá certo muitas vezes, algumas pessoas confundem repetição com segurança. “Sempre fizemos assim.” “Nunca deu problema.” “A equipe é experiente.” “Todo mundo pula.” “Relaxa.” Essas frases podem parecer tranquilizadoras, mas também podem ser o som ambiente da negligência.
Segurança não é o que a pessoa diz que faz. Segurança é o que ela prova que faz, antes da atividade começar.
Em qualquer atividade onde uma falha pode custar uma vida, o básico não pode depender da lembrança de alguém. Quem checou? Quem confirmou? Quem autorizou? Quem tem a palavra final? Qual é o procedimento de abortar? Existe dupla conferência? Existe comando único? Existe responsabilidade definida? Se ninguém sabe responder com clareza, o risco já começou antes da pessoa sair do chão.
Não dá.
Eu venho do universo outdoor, do bushcraft, do sobrevivencialismo e da preparação. Nesse meio, quem leva segurança a sério sabe que risco não se elimina completamente. A natureza, a altura, a água, o fogo, o clima, a lâmina, o terreno e o próprio corpo humano têm limites. O que se faz é reduzir risco com planejamento, treinamento, responsabilidade e humildade. Humildade, inclusive, é uma palavra que muita gente do nicho radical deveria tatuar na testa antes de vender experiência extrema para os outros.
A vítima não pode ser culpada por confiar
Toda vez que acontece uma tragédia assim, aparece uma turma tentando empurrar a responsabilidade para a vítima. “Mas ela quis pular.” “Mas esporte radical é perigoso.” “Mas quem procura aventura assume o risco.” Esse tipo de comentário é uma mistura de ignorância com preguiça moral.
Sim, quem participa de uma atividade radical sabe que existe risco. Mas assumir um risco não significa aceitar ser entregue ao improviso de terceiros. A pessoa contrata ou aceita participar de uma experiência esperando que o mínimo técnico esteja sendo cumprido. Ela não está ali para auditar sistema de segurança como se fosse perita em cordas, ancoragem, operação e gestão de risco. Quem oferece a atividade é que tem obrigação de garantir que o procedimento foi feito corretamente.
Se uma pessoa entra em um avião, ela sabe que voar envolve risco. Isso não autoriza uma companhia a esquecer combustível, manutenção ou piloto. Se alguém faz uma cirurgia, sabe que existe risco. Isso não libera a equipe médica para ignorar protocolo. Se alguém pratica uma atividade de altura, sabe que há risco. Isso não transforma a ausência de corda em “parte da aventura”.
A tentativa de colocar a responsabilidade na vítima é confortável para quem quer fugir do centro da conversa. Porque, se a culpa vira da pessoa que confiou, ninguém precisa discutir fiscalização, autorização, preparo técnico, cultura de segurança, responsabilidade civil, omissão de poder público e exploração comercial de atividade perigosa.
E falando em omissão, outro ponto torna o caso ainda mais absurdo. A Ponte do Esqueleto já era conhecida como ponto de atividades radicais e, segundo a Agência Brasil, a Secretaria de Patrimônio da União já havia solicitado o bloqueio do acesso ao local antes da tragédia. A estrutura estava desativada há anos e era usada como ponto turístico informal. Ou seja, mais uma vez, temos aquele cenário maravilhoso em que todo mundo sabe que existe risco, todo mundo empurra responsabilidade, ninguém resolve de forma definitiva e depois todos aparecem chocados diante do resultado.
Choque seletivo também cansa.
A morte de Maria Eduarda precisa servir como alerta para quem consome, organiza, divulga e fiscaliza atividades de aventura. Não para acabar com o esporte radical, nem para transformar toda experiência outdoor em burocracia sem sentido. O objetivo é outro: separar aventura séria de irresponsabilidade vendida com música empolgante e câmera de ação.
Quem trabalha com risco precisa aceitar uma verdade simples: segurança não é acessório. Não é detalhe. Não é frescura. Não é exagero. Segurança é a própria atividade. Sem ela, o que sobra não é esporte. É roleta.
E quem participa também precisa desenvolver uma postura mais crítica. Não é paranoia perguntar se existe autorização, seguro, equipe capacitada e procedimento claro. Não é vergonha desistir quando algo parece bagunçado. Não é covardia recuar diante de um ambiente onde ninguém transmite confiança. Covardia é fingir que está tudo bem para não parecer chato.
A cultura outdoor precisa amadurecer. A internet transformou muita coisa em espetáculo. Tudo precisa ser gravado, postado, viralizado, vendido como experiência inesquecível. O problema é que algumas experiências se tornam inesquecíveis pelos motivos errados.
Maria Eduarda não pode virar apenas mais um vídeo compartilhado com legenda de espanto. Ela tinha nome, família, história, futuro e gente que agora precisa conviver com uma ausência que não caberia em nenhuma aventura. Reduzir isso a conteúdo de choque é outra forma de desrespeito.
O debate que fica é incômodo, mas necessário. Quantas atividades são vendidas hoje sem estrutura real? Quantos lugares perigosos seguem funcionando no improviso? Quantas equipes operam sem divisão clara de responsabilidade? Quantas pessoas confundem carisma com competência técnica? Quantas tragédias ainda serão chamadas de fatalidade para que ninguém precise admitir que o risco estava gritando antes?
No sobrevivencialismo, falo muito sobre percepção de risco. E percepção de risco não serve apenas para escolher rota de fuga, montar estoque ou avaliar uma crise social. Serve para a vida cotidiana. Serve para uma viagem. Serve para um acampamento. Serve para contratar uma experiência. Serve para olhar em volta e perceber quando a confiança está sendo exigida onde deveria haver procedimento.
A tragédia em São Paulo mostra, de forma brutal, que a linha entre aventura e irresponsabilidade pode ser muito fina quando o espetáculo fala mais alto do que a segurança. E, sinceramente, se uma atividade depende de sorte para não matar alguém, o problema não é o risco. O problema é quem teve coragem de chamar isso de serviço.
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